Xenofobia, Isolamento e Barbárie: coisas boas (para a Narrativa)

 

 

Eu preciso admitir ter sido divertido escrever o último post. Pouco tempo após escrevê-lo me veio a lembrança de que, de certa forma, poderia trazer algo mais sobre aquele tipo de antagonista. Por outro lado, xenofobia, isolamento e barbárie são forças que – infelizmente – todos nós conhecemos de alguma forma, seja através da mídia, seja através de nosso cotidiano. Por isso, decidi escrever sobre esses elementos como parte de qualquer narrativa, mas, claro ainda voltando-me para o World of Darkness, ou, pelo menos, para cenários com o estilo dark fantasy, como Ravenloft.

A principal inspiração aqui foram alguns parágrafos acerca do tema, no Requiem e no Damnation City. Vampire, mesmo ambientado na contemporaneidade, possui um clima medieval particular, romântico e gótico, e isso faz sentido, afinal o gênero gótico nasceu também como fascinação por castelos, ruínas, catedrais e catacumbas, os lugares onde os autores costumam esconder os Membros. Além disso, os Membros lutam por recursos limitados dentro de suas cidades, e por isso acabam formando sociedades políticas como as de grupos humanos vivendo com a escassez de recursos (como na própria Idade Média, mas pretendo detalhar isso em outro Post). No Requiem cada cidade é um feudo.

A escassez de recursos parece ser um dos principais motivos pelos quais essas forças terríveis se manifestam. Além do medo, claro. As comunidades desejam defender suas posses e sua integridade (inclusive a integridade física de seus membros), e por isso se fecham, adotando um comportamento e um modo de pensar voltados para dentro. Os forasteiros são rejeitados e estigmatizados, são tratados como inimigos, ou, na melhor das hipóteses, recebidos com desconfiança e medidas de segurança.

No fim das contas, acredito que todos esses sentimentos e comportamento se baseiam no medo, mas não apenas. Elas se baseiam no medo perpetuado, o medo transformado em força social e cultural. O medo une a comunidade e faz os seus membros trabalharem para a realização de um fim. Assim, o medo pode ser capaz de fornecer a energia para os atos mais heróicos, ou para as piores atrocidades. (basta, por exemplo, lembrarmos o elemento fóbico no anti-semitismo nazista).   

 

Ódio, loucura e misticismo encarnados em Himmler, chefe das SS. Este personagem mostra até onde pode ir o sentimento de desprezo pelos "outros".

Ódio, loucura e misticismo encarnados em Himmler, chefe das SS. Este personagem mostra até onde pode ir o sentimento de desprezo pelos "outros".

 

O fanatismo ou ódio da comunidade também podem não ser tão claros, mas, por algum motivo, ainda guiam os seus comportamentos. Isto os torna ainda piores, pois – quando finalmente decidirem agir – atacarão vítimas desprevenidas. O motivo para as suas ações pode muito bem ter alguma relação com aspectos discutidos no meu último post. A natureza e os caracteres particulares de cada comunidade devem influir nas suas ações, objetivos e métodos, e por isto se deve considerar com cuidado quem são esses antagonistas (ou protagonistas?).    

Existem muitos tipos de comunidades isoladas, mas o exemplo clássico ainda é o da aldeia medieval, pelo simples fato da Idade Média ainda ser um símbolo comum para o isolamento e a barbárie. Mas também poderíamos estar nos referindo a uma cidadezinha perdida no meio do nada, seja no interior do nordeste brasileiro ou do bible belt americano. Forasteiros são “notícias ruins”, e se tornam alvo de um olhar curioso (no pior sentido possível) e cheio de péssimas expectativas, por parte dos locais. As atitudes podem nem expressar o sentimento, mas alguma coisa estranha fica no ar, algo que os recém chegados não sabem dizer o que é, mas que parece errado.   

Aparentemente, barbárie e xenofobia se complementam. A barbárie é reforçada pela xenofobia, e vice-versa. Os bárbaros são todos “os outros”, os forasteiros, os homens que não pertencem ao grupo, ou a nenhum grupo. Eles são errantes, nômades, e os povos sedentários costumam temer e desprezar o modo de vida dos que vagam. O contrário é verdade, e os nômades desprezam os habitantes das comunidades que encontram em seu caminho. O isolamento nasce da impossibilidade dos dois grupos chegarem a algum tipo de equilíbrio, a uma estabilidade (a não ser que consideremos os conflitos freqüentes como um tipo de estabilidade). Enfim, os dois grupos não poderão coexistir sem conflitos, pois o modo como cada um leva sua existência contraria, nega, o modo de vida do outro lado.    

Essas noções trazem imagens de aldeias cercadas por saqueadores vindos de longe, como hunos e vikings (ou orcs!). No entanto, descreve perfeitamente algumas comunidades que existem dentro das grandes cidades em que vivemos. Basta olhar para os nossos condomínios fechados, cuja segurança se baseia na limitação da entrada de quaisquer outros que não os moradores. Em alguns bairros mais violentos, por outro lado, a comunidade podem se dividir entre o comando de duas gangues rivais, e os membros de uma delas não conseguirá cruzar os territórios dos seus inimigos sem receber alguma espécie de aviso, ou coisa pior.

Mas como o Narrador poderia utilizar esses elementos? Esse será o tema da segunda parte deste post. 

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